Mês: Dezembro 2014

Importância do ensino do braille na reabilitação de cegos adulto

Afirmar que o braille é um símbolo de identificação com a cegueira, é um lugar comum para quantos lidam de perto com estas questões, mas pode ter algum significado para aqueles (e são-no cada vez em maior número) que há pouco tempo se vêm introduzindo nestes assuntos.

Só lê braille quem não vê, quem é forçado por razões determinantes a fazê-lo quando já se esgotaram todas as hipóteses, ainda que ténues, de alternativas aos resíduos visuais.

Sempre que um adulto, portador de cegueira recente, se disponibiliza para aprender o Sistema Braille é porque já assumiu a sua nova condição de deficiente visual. Esta é a primordial de todo um conjunto de muitas outras que se lhe seguem e que estão subjacentes a esta atitude perante a sua nova vida de indivíduo privado de vista. É, talvez nesta acepção que a palavra “reabilitação” tem o seu maior significado. “Reabilitar” é “voltar a preparar a vida”. Alguém que viu durante um período mais ou menos longo da sua existência e em dado momento fica privado desse sentido é um ser humano que ficou com a sua vida cortada em duas partes: uma antes e a outra depois de ter ficado cego. Tal como afirmou um estudioso americano das questões da cegueira, ela, a cegueira, é um acontecimento de tal modo grave na vida de uma pessoa, susceptível de “desestruturar” a personalidade.

Decidir aprender o Sistema Braille é, pois, uma decisão séria e profundamente construtiva para “reestruturar” e retomar o gosto, o interesse, o prazer pela vida, pelos afectos, pelas emoções, pela realização pessoal e profissional.

Um adulto que aprende braille em processo de reabilitação é, obviamente, um cidadão alfabetizado e, não raro, portador de um grau de cultura e instrução académicas elevados, não vai portanto aprender a ler nem a escrever, mas, tão somente, vai aprender a ler e escrever por um novo processo baseado num outro sentido, o do tacto.

A aquisição da técnica de leitura é o passo mais árduo e moroso que o aluno tem de dar; pelo contrário, a técnica da escrita é mais simples e fácil; é por isto que a escrita só é iniciada quando o aluno já domina razoavelmente a leitura.

O Sistema Braille não é gratificante, análogo da escrita vulgar. Recorre a um sentido, o tacto, que também não é análogo do sentido da vista, pois enquanto este é globalizante, o tacto é analítico… Estas diferenças têm de ser respeitadas…

A reabilitação dos cegos adultos é um processo global e total. O ensino do Sistema Braille é apenas um dos elementos que compõem essa totalidade. Ensinar o Sistema Braille a um adulto que cegou recentemente não é uma mera transmissão de conhecimentos técnicos, conteúdos pedagógicos. Nesta condição, o professor de braille tem de ter disponibilidade para ouvir e falar sobre a cegueira, de atitudes e de defesas, medos e angústias que o aluno manifesta perante ela.

A reabilitação não é um mero processo com tempo e horário marcados. É antes uma mudança de atitude face à vida, sem o sentido da vista, que implica coragem, determinação, consciência de que se é diferente do que se era dantes. Mas, simultaneamente, a reabilitação dá a consciência de que a vida não termina porque a vista terminou. Que Ela, a Vida, continua a ter sentido, valor e espaço de afirmação pessoal.

Ensinar braille a um adulto que cegou recentemente é, em suma, ajudar alguém a dar o salto da profunda depressão e descrença para uma nova postura em que o braille é um dos muitos instrumentos de acção positiva no futuro.

Alice PInheiro

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