Testemunhos

O Centro de Reabilitação da Areosa proporcionou-me, como cego, conhecimentos e ensinamentos de valor inestimável na minha vida.
Apesar de o meu ingresso ter sido posterior à minha independência, por intermédio da bengala branca, no que à mobilidade respeita, foi lá que aprendi a navegar sozinho e sem medo pelas mais complexas ruas e edifícios, proporcionando-me uma inestimável independência na minha faculdade, proporcionando-me um percurso académico confiante e seguro. Foi também graças a esta destreza e confiança na minha mobilidade que reuni as condições necessárias para ter um cão-guia, que me veio facilitar ainda mais as deslocações, dado saber exactamente onde estou e para onde quero ir, dados sem os quais se torna inviável a ajuda canina.
Aprendi também a ler e escrever, não só texto mas também matemática e música, em Braille, servindo-me como um importante complemento aos sintetizadores de texto, não só para a minha vida pessoal como para a vida académica e profissional.
De igual relevo e importância foi a minha aprendizagem na área das AVD (Actividades da Vida Diária). Apesar de saber alguns básicos, como cuidar de mim e do meu quarto, actividades como passar a ferro ou coser um botão faziam apenas parte da mística e magia maternas, passando a ser competências minhas que irão comigo para onde a vida me levar. Também na área das AVD, mas merecedora de referencia destacada, está a cozinha. Foi graças ao Centro de Reabilitação da Areosa que perdi o medo de me aproximar de um fogão ligado, passando os termos mais falados na cozinha de meros passos de magia a actividades que eu compreendia e sabia como realizar em segurança e “à minha maneira”, sem preocupação com a minha integridade física, sempre garantida. Apesar dos vários pratos que confeccionei durante as aulas, a maior bagagem de confiança que delas levo é a garantia que sou e serei capaz de confeccionar qualquer deliciosa refeição caseira que aprecio ou alguma que me apareça na vasta base de dados que é a Internet.
Apesar de ter ingressado no Centro com a minha independência informática já conquistada, foram indispensáveis as dicas e soluções que fui recebendo dos professores e outros utilizadores em situações similares. De igual ou maior importância e relevo foi a experiência de convívio, troca de ideias e vivências com os professores e utilizadores do Centro, proporcionando, além de diversão e simpatia, o conhecimento de outros casos de luta, sucesso e inspiração e até contactos com amigos de fora do centro com interesses e percursos semelhantes aos meus.
Assim, e graças à minha passagem pelo Centro de Reabilitação da Areosa, sinto-me capaz e confiante para enfrentar o futuro, passe ele por onde passar num mundo cada vez mais global, sabendo que serei sempre capaz de resolver as situações com que me defronte, sejam de que natureza forem, bem como de confeccionar e degustar qualquer refeição caseira esteja onde estiver! (Diogo)

 


Sou a Elisabete Marcelino Domingos, natural do Ninho do Açor, concelho de Castelo Branco, e resido no Porto desde Agosto de 2009. Sou portadora de deficiência visual, (Retinite Pigmentar), deficiência esta que me vai limitando a visão com a evolução do tempo, até que, o desfecho da cegueira é inevitável. Consciente da situação, e na altura já não caminhava sem a ajuda da minha bengala branca, em Setembro de 2009 recorri ao Centro de Reabilitação da Areosa para que, com a sua ajuda, pudesse fazer o reconhecimento da cidade, com aulas de orientação e mobilidade, pois quando vim viver para o Porto nada conhecia, e para alguém que é, e quer sempre ser autónoma como eu, ficar privada de andar sozinha para qualquer lugar era um enorme problema!

Para além da resposta que prontamente o Centro me deu, tenho de reconhecer e agradecer a enorme celeridade em que essa resposta fora dada; é que em quinze dias após o primeiro contacto com a Instituição já estava a ter a primeira aula de Orientação e Mobilidade, bem como a aprendizagem do Sistema Braille.

Para além do excelente trabalho que  reconheço ser feito no Centro de Reabilitação da Areosa, ele é também uma Instituição de proximidade para com os nortenhos; é que se ele não existisse nem sei muito bem onde procuraria ajuda, quer ao nível da Orientação e Mobilidade, quer ao nível da aprendizagem do sistema Braille, que também ali aprendi, ferramenta que hoje me permite a leitura em papel, que sempre privilegiei e tanto jeito me dá na minha vida profissional. 

É por tais razões que defendo a existência e pertinência do Centro de Reabilitação da Areosa, pois ele é uma das pouquíssimas possibilidades onde os cegos têm a oportunidade de reaprender a viver!

Ao Centro, em especial a todos os técnicos que meritoriamente ali trabalham o meu muito obrigada!

 


Chamo-me Alice Pinheiro, tenho 34 anos, sou cega congénita, possuo o 12º ano de escolaridade e resido em Espadanedo, aldeia situada no interior do país, no Concelho de Cinfães, – Distrito de Viseu.

Frequentei o Instituto S. Manuel até ao 4º ano. Em seguida fui para o ensino integrado na Escola EB 2,3 e Secundária de Cinfães.

 Convido-vos a fazer o que outras pessoas fizeram comigo. Incentivem e deem condições (transporte, dispensa de algumas horas do serviço, caso a pessoa trabalhe, etc.), para que os portadores de deficiência visual, se desloquem para o referido Centro, único existente no Norte do país, pois não se irão arrepender nada, bem pelo contrário. Vão ser mais independentes, vão fazer amizades convivendo com pessoas que estão na mesma situação que elas e, acima de tudo, vão ter outra qualidade de vida.

Este Centro foi muito importante para mim porque aqui aprendi Orientação e Mobilidade, isto é, a deslocar-me sozinha na rua, sem medo e preconceitos, algo que para os cegos por vezes é tão difícil de combater. Inicialmente deslocava-me a este Centro de táxi mas após muito trabalho meu e do professor comecei a deslocar-me para a referida instituição sozinha, mas confesso que foi difícil porque sentia imenso medo de me desorientar e não ser capaz. Muitas vezes o técnico de Mobilidade dizia-me para treinar em casa e eu não o fazia porque não tinha confiança em mim própria, mas felizmente tudo foi ultrapassado e hoje em dia ando sozinha com a minha bengala.

 Na Disciplina AVD, aprendi a cozinhar, a passar a ferro, a assinar o nome e a pregar botões. Esta área, tal como a anterior, também foi muito importante mas nem por isso é mais fácil. Inicialmente tive imenso medo do ferro, do fogão e da agulha mas com algum trabalho e persistência, tudo se ultrapassou e, eu que nem uma sopa sabia fazer, saí da reabilitação a fazer isso e muito mais.

Também frequentei a área de Informática, que foi a que mais me fascinou. Antes de frequentar esta aula, usava o computador como uma máquina de dactilografia, isto é, apenas escrevia o que pretendia e depois dependia de uma pessoa com vista para me guardar o trabalho, o imprimir ou pôr numa pen. Após ter terminado esta disciplina, usava o computador tal e qual como uma pessoa normovisual. Escrevia alguns textos para publicar no jornal do grupo de jovens do qual faço parte e era eu que os formatava, passava para a pen e entregava a quem de direito. Comecei a preparar as minhas aulas de catequese digitalizando as páginas do catecismo no scanner. Aprendi a jogar à forca, ao dominó, às cartas, etc. Comecei a ler livros e a ouvir música no computador, através dos CDs que gravava.

 Como vêem, foi das melhores decisões que tomei na minha vida. Hoje em dia, sinto-me totalmente realizada a este nível. Espero que quem esteja a ler este pequeno testemunho tenha a coragem de fazer o mesmo que eu.

Não quero terminar este testemunho, sem agradecer a todos os elementos da equipa de Reabilitação Funcional de Cegos de Adultos, o quanto fizeram por mim, pois sinto-me mais autónoma e estou mais preparada para enfrentar os desafios que a vida nos coloca.


Bom dia a todos, o meu nome é Elisabete Santos e sou de Santo Tirso. Em 2005 fui diagnosticada com um tumor cerebral, que depois de uma cirurgia no hospital de Santo António e numa negligência nos cuidados intensivos, fiz uma meningite e hipertensão intra craniana, resultando numa atrofia do nervo óptico e uma paralisia facial nos membros inferiores do lado direito. Tudo isto aconteceu em Maio e fiquei em recuperação até Setembro. Após conversa com a assistente social , esta recomendou-me o centro de reabilitação da Areosa. Não conhecia embora já tivesse ouvido falar. Na altura eu ia e vinha de ambulância, mas dado a minha fragilidade eu não estava muito receptiva ao que me ensinavam. Agora e passado 9 anos e muita fisioterapia e cirurgias plásticas , retomei a aprendizagem lá no centro, pois sinto-me com mais capacidade, embora ainda precise de mais saúde. Fico muito triste se fecharem aquele centro,  não apenas por mim , mas sim por todos os que tal como eu , querem aprender e ser úteis perante a sociedade e não uns pobres coitados.Eu desde que frequento aquele espaço me liberto e sou mais independente, pois os professores dão um tónico de força e coragem para sermos capazes de nos defender no dia a dia. Vamos unir-nos e vencer a guerra contra a segurança social .


Olá, sou o José Moura da Cunha, gostei muito de aprender no Centro de Reabilitação da Areosa.

Fui para lá para ter Braille, AVD e mobilidade.

Em AVD, aprendi a cozinhar. O que eu mais gostei de fazer foi um bacalhau com natas (que ainda hoje tenho a receita e faço em casa),  aprendi a descascar batatas, dobrar roupa, passar a ferro e limpar o pó e ainda a fazer a cama. Tudo isto ainda faço em casa, tendo sido muito útil para mim aprender.

Quanto à mobilidade, aprendi a andar dentro do Centro sozinho, isto é, a ir para as salas de aula, bar e cantina. Após isto comecei a sair para a rua e o primeiro percurso que fiz foi ir ao modelo e voltar para o Centro novamente. Também aprendi a ir ao cruzamento da Areosa, ao talho e à farmácia. Uma história que vos gostava de contar e que mostra que eu não tive dificuldade na mobilidade é a seguinte: “certo dia fui com o professor Pedro ao cruzamento da areosa sempre a conversar e ele pensava que eu me ia enganar mas a cabeça ia sempre a trabalhar, nada de me enganar.”

Quando soube que ia ter Informática, para mim foi logo um bicho de 7 cabeças: ao ir para a primeira aula a viajem não correu bem e então fui ao bar tomar um chá e quando cheguei à sala de aula tocando com a mão no teclado do computador disse que não ia decorar aquilo tudo. O Professor Abel que já me conhecia desde criança, disse-me para ter calma e para não ficar tão preocupado, que tudo ia correr bem.

Na segunda semana, já comecei a aprender as primeiras letras do computador e vim um pouco mais alegre para casa. Quando senti que que cada vez ia aprendendo mais, pensei: se os meus amigos são capazes de aprender informática porque é que eu não sou?

Aqui fiz novos amigos e até encontrei amigos de Infância. Portanto nunca percam a esperança porque é bom aprender e o saber não ocupa lugar.


A minha reabilitação no Centro da Areosa tem sido a continuação daquilo que se iniciou na minha vida desde os nove anos de idade.  Comecei num colégio de cegos em Lisboa, onde estudei até ao segundo ano do liceu, tinha também aulas de ginástica, canto coral, solfejo, piano, trabalhos manuais, actividades da vida diária e mobilidade.  Muito mais tarde, tive a oportunidade de continuar os meus estudos à noite, até ao 12º ano, fiz alguns cursos de formação profissional e em determinada altura a Madalena sugeriu que eu viesse para o Centro da Areosa, uma vez que eu tinha muitas dificuldades na informática e aqui no Centro de Reabilitação teria mais facilidade de aprendizagem, pois os professores eram muito bons e tinham paciência. No Centro da Areosa tive a oportunidade de ampliar um pouco mais os meus conhecimentos de informática, aprendi a trabalhar com tirela, macramé, trabalhar com o talks. Também temos a possibilidade de conviver, dar alguns passeios, bem como participar nalguns eventos, o que é muito salutar.

Augusta Fardilha


 

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2 comments

  1. Considero de grande importância a frequência das aulas de reabilitação no Centro da Areosa porque adquiro conhecimentos que, de outro modo, não era possível aceitar que podia andar sozinho nos transportes Publicos , ler um livro no computador, como já li vários, ou ainda como contactei com a Câmara Municipal por email para solicitar a reparação dos passeios da rua onde moro. Pois estava com buracos perigosos para quem os utiliza. Já foram reparados e curiosamente tal foi referido numa reunião de condomínio ontem mesmo, no prédio aonde habito. De referir tambem que o contacto humano com os professores e alunos é de muita importância para a nossa integração no meio ambiente e na vida do dia a dia.

  2. Sou cega diabética e vim para o centro de reabilitação da areosa. Aqui encontrei a tábua de salvação, encontrei as ajudas para ser uma pessoa com objetivos e com alguma autonomia. Com a dedicação dos professores tudo se torna mais simples. Todos que sejam cegos procurem a ajuda no centro e os que não são visitem o centro. Ajudem e divulguem uma causa que é de todos.

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